Breve experiência didática: o beijo como fato social

Breve experiência didática: o beijo como fato social

O fato social e meu segundo beijo

 

Marcel Vidal de Albuquerque

Marcel Vidal de Albuquerque*

Resumo do projeto/atividade:

Na terceira aula do 1º bimestre de 2018, em turmas do 1º Ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Roberto Montenegro, bem como no Colégio Jean Piaget e Centro Educacional de Mambucaba (localizados em Angra dos Reis e Paraty, respectivamente), com a finalidade de entenderem a abordagem funcionalista, a qual defende que o Fato Social é uma norma presente na consciência coletiva, introjetada nos indivíduos devido ao constrangimento social promovido pelas instituições, narrei uma experiência pessoal para que os alunos percebessem que a Sociologia abarca suas vidas. Para isso, dividi a atividade em:

  1. Uma pergunta propulsora: Você escolhe seus gostos?

  2. Exibição de cena do filme “Meu primeiro amor”, com o objetivo de utilizar um dos sentidos do termo gosto no âmbito afetivo e pessoal, aproximando-os da teoria.

  3. Roda de conversa breve sobre experiências pessoais de primeiro beijo.

  4. A partir de uma narrativa pessoal, expus a teoria do Fato Social

  5. A avaliação da assimilação do conteúdo se deu a partir de artigos que comparavam diferentes posturas de pais diante da vestimenta dos filhos.

Segue a narrativa, reproduzida na íntegra como o foi pessoalmente:


O fato social e meu SEGUNDO beijo


O ano é 1998. Dentro de dois dias, me mudarei de Resende. Estou no aniversário da Vanessa. Vanessa gosta de mim. Eu gosto de outra Vanessa, com quem perdi o famigerado BV. Estamos indo para atrás do Bloco B, onde eu darei meu segundo beijo na vida. Ela na frente, eu 39 segundos depois – pra ‘ninguém perceber’. Ela me beija todo, menos na boca – calma, temos 11 anos. Se eu esfregasse a mão na cara, ela pingaria. Brevíssimos minutos depois, saio de lá. Todo babado, indagado pela molecada sobre como foi, eu digo que foi o pior beijo da minha vida. E, bem, era verdade. 

Máquina do tempo. Agora é 2005. Recebo um scrap (rs) no finado Orkut. Pra minha surpresa, é Vanessa II. Ela pede meu MSN (já vieram Whatsapp e Telegram, sim, tô ficando velho). Eis que sua primeira mensagem é uma interrogação que mais parecia exclamação: ‘É verdade que você espalhou que eu não sabia beijar?’ Aos 18, reconheci e quebrei o mito de que crianças não podem ser cruéis. O causo pré-Orkut serve para entender o conceito de FATO SOCIAL, de Durkheim: 

1. Há normas compartilhadas do que é o beijo, não era apenas eu quem achava que o beijo não deve ser babado. Meu desgosto não foi solitário.

2. Quando Vanessa e eu nascemos, aliás, já havia noções do que era um beijo bom. 
3. Você já deu um beijinho de esquimó? Já viu seus avós se beijarem? O beijo varia, certo? Isso significa que até o beijo é algo que depende do meio social, não nasce com a gente. Não é, portanto, inato. E por isso pode ser objeto de estudo da Sociologia.

4. Ninguém falou pra Vanessa que o beijo deve conter movimentos rotatórios não totalmente uniformes da língua, com aproximadamente 3 cm adentrando a boca, cuja temperatura deve estar em torno de 37º C. Muito do que sabemos e fazemos, nos é ensinado de forma implícita. Por mais terrível que seja, ela aprendeu a beijar por conta do constrangimento a que foi submetida.


Tomara que com essa história você tenha aprendido do que é feito um fato social (generalidade, anterioridade, exterioridade e coercitividade). E que, quase 20 anos depois, Vanessa tenha me perdoado.

Objetivo da atividade:

Assimilação e apropriação da teoria do Fato Social, de Durkheim.

Público alvo:

1º Ano do Ensino Médio


Metodologia da atividade:

Relatos pessoais sobre primeiros beijos (meu e dos alunos), o que possibilita criar vínculo pessoal tanto quanto perceber que a Sociologia trata também de hábitos cotidianos.

Materiais necessários:

Projetor para exibição de cena do filme “Meu Primeiro Amor”; exposição teórica em quadro; roda de conversa para relatos; avaliação por meio de artigo jornalístico seguido de perguntas que associavam-no à teoria do Fato Social.

Duração da atividade:

1 aula: 100 minutos

Resultados esperados/atingidos:

Ao se apropriarem dos elementos que caracterizam o Fato Social (generalidade, exterioridade, anterioridade e coercitividade), fizeram atividade escrita com perguntas sobre outra prática de suas rotinas, vinculada à educação familiar e à moral, não com a finalidade de exporem juízos de valor, mas serem capazes de descrever um fenômenos à luz do paradigma funcionalista.

Referências:

Durkheim, E. As regras do método sociológico. São Paulo, Martins Fontes, 2003.

__________. A educação moral. Petrópolis, Vozes, 2008.

__________. Lições de sociologia. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

*Marcel é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, onde também adquiriu título de mestre em Ciência Política. Professor desde 2012, tem experiências diversas: lecionou Sociologia no Fundamental, EJA, colégio para atletas das categorias de base do Vasco da Gama, escolas de ensino confessional, Fundamentos das Ciências Sociais na Universidade Federal de Alagoas e hoje ocupa-se com o Ensino Médio na rede pública e privada e pré-vestibular, um deles de caráter social em uma praça pública no município de Angra dos Reis: o Pré na Praça. É, também, idealizador de um projeto que associa sempre casos práticos às teorias abordadas na Escola pelas diversas matérias, com vistas ao ENEM: o P(r)é no Chão.

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